Passei toda
a minha infância, e parte da minha juventude, a ver o Benfica ganhar, o regime
a protegê-lo, os árbitros a ajudá-lo, os jornais a enaltecê-lo e a televisão a
lavar o cérebro aos Portugueses, com o Eusébio para aqui, o Simões para acolá,
e o resto da equipa para todos os lados.
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| Benfica com o Presidente da República Portuguesa, Américo Thomaz |
O Domingo
abria e encerrava com dois ofícios religiosos, a Missa de manhã, que frequento,
e o Domingo Desportivo à noite, com a homilia sempre a cargo de um comentador
fanaticamente benfiquista, enquanto os Portugueses, boquiabertos com o fenómeno
da televisão, que recentemente aparecera, confundiam a beleza desta tecnologia
com a pretensa beleza da maneira de jogar do Benfica.
O futebol em
Portugal era assim como que um torneio da segunda circular, com o Benfica, por
lei tácita, a ganhar pelo menos mais quatro vezes que o Sporting.
Claro que os
“clubes da província” também nele podiam jogar, desde que não tivessem a
ousadia de o tentar ganhar, só para dar graça ao torneio, como as bandas de
música abrilhantam os dias de festa das nossas aldeias.
Que bem me
lembro, carago!
Como eu
chorei tantas vezes ao ver o meu clube espoliado, roubado no campo e no mais
profundo da sua alma.
Algum dos
meus leitores se recorda do tempo em que o presidente da Federação Portuguesa
de Futebol era escolhido exclusivamente pelo Benfica, Sporting e Belenenses?
A primeira
meta que Pinto da Costa se propôs atingir, como director do departamento de
futebol do FC Porto – no que foi ajudado por José Maria Pedroto – foi alterar
esta hegemonia lisboeta, tantas vezes mantida de forma pouco lícita.
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| Pedroto, Pinto da Costa e Domingos Gomes,no dia do jogo de Ademir |
Em 1978 eu
vivia em Lisboa, onde frequentava a Faculdade de Direito da Universidade
Clássica.
Em Lisboa
conhecia poucos portistas, e os que conhecia eram do Porto, que ali também viviam,
por razões escolares ou profissionais.
Um dia, em
1978, eu e mais três amigos, dois do Benfica e um do Sporting, viemos a Porto,
onde, pelas 15h00, o FC Porto e o Benfica jogariam nas Antas o penúltimo jogo
do campeonato nacional, da época de 1977- 1978.
O Porto
tinha então 47 pontos, e o Benfica 46.
O estádio
estava a abarrotar, com a presença de perto de 60.000 pessoas – nessa altura os
estádios de futebol não tinham cadeiras, pelo que, à excepção dos cativos,
aqueles que ficavam debaixo da cobertura, todos os assistentes ao jogo ficavam
de pé, completamente apertados, cabia sempre mais um. Nessa altura ainda não se
tinha feito o rebaixamento do estádio que, quando concluído, elevou a
capacidade do estádio para 90.000, quando cheio da mesma forma acima indicada.
A pista de
atletismo/ciclismo em torno do relvado era larga e, entre esta e a parede onde
as bancadas terminavam, existia um fosso de meio metro de profundidade e uns
dois metros de largura. No fosso, chamado “peão”, havia dois ou três degraus, e
apoiada na parede, atrás de quem se encontrasse no peão, a olhar para o relvado,
uma rede alta impedia que quem estivesse no peão saltasse para a bancada e que
quem estivesse na bancada invadisse o relvado, saltando por cima do peão.
Foi no peão
que eu e os meus três amigos ficámos, por já não haver bilhetes para qualquer
outro lugar no estádio.
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Estádio das Antas no dia da inauguração. A colocação desta fotografia serve apenas para se apreciar a pista de atletismo/ciclismo e o peão |
O calor era
insuportável, as pessoas acotovelavam-se no peão, ao ponto de parecer que
sufocavam.
Dos quatro,
o sportinguista, que viera apenas para ver como era, conseguiu saltar a rede
para a bancada e desapareceu num mar de gente. Só no fim o voltámos a ver.
Os dois
benfiquistas, que me acompanharam na esperança de virem ver o Benfica inverter
a pontuação na tabela, ficaram ao meu lado esquerdo. Ao meu lado direito estava
um homem de castanho – mais tarde soube que era do Benfica, a quem, durante o
jogo pedi oito ou nove cigarros, que os nervos eram muitos e eu me tinha
esquecido de comprar os meus.
O ambiente
do estádio era indescritível. Sem exagero, cada pessoa tinha pelo menos uma
bandeira do Porto nas mãos, porque muitos tinham duas. Nessa altura ainda não
se usava muito o cachecol, e as bandeiras podiam entrar nos estádios com haste
de madeira.
A três ou
quatro minutos da entrada dos jogadores, o estádio inteiro gritava Porto!,
Porto!, ora os da metade sul do relvado, ora os da metade norte. Ninguém
conseguia falar com ninguém, tal o barulho ensurdecedor.
Recordo-me
que o Rodrigues, um dos benfiquistas que me acompanhava, exclamou: “E chamam
por eles!”, exultando com aquele cântico e confessando nunca ter visto nada de
semelhante na Luz.
A entrada em
campo dos jogadores do Porto levou à assistência a um êxtase total.
O calor
subia, e algumas pessoas, desidratadas ou comovidas, começaram a ser
transportadas de maca para o exterior do estádio, e dali para ambulâncias.
Voluntários
da Cruz Vermelha, munidos de mangueiras, davam água às pessoas do peão, ou
regavam-nas, a seu pedido, para melhor enfrentarem a sede e o calor.
As equipas
alinharam da seguinte forma: FC Porto – Fonseca na baliza, Gabriel a lateral
esquerdo, Simões e Freitas (depois Vidal) no centro da defesa e Murça a lateral
esquerdo; Rodolfo, Octávio, Ademir e Oliveira, no centro do terreno, Duda e
Gomes no ataque. Benfica: Fidalgo na baliza, Bastos Lopes a lateral esquerdo,
Humberto Coelho e Eurico no centro da defesa e Alberto a lateral direito,
Pietra, José Luís, Toni e Shéu, no centro do terreno, Nené e Chalana no ataque.
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| Fotografia tirada no dia do jogo de Ademir |
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| Fotografia tirada no dia do jogo de Ademir |
Começou o
jogo do século e, aos três minutos, num puro golpe de infelicidade, Simões
marcou um golo na própria baliza, após um cruzamento do benfiquista Bastos
Lopes.
O silêncio
caiu sobre o estádio, como um cutelo de magarefe sobre um pedaço de carne no
talho.
As contas
vieram à cabeça de todos. Se o Benfica ganhasse, ficaria com 48 pontos – nessa
altura a vitória valia dois pontos e o empate um – o Porto com 47, e
dificilmente o Benfica não seria campeão, com apenas mais dois jogos pela
frente.
E em
silêncio se manteve o estádio, num silêncio aterrador até sete minutos do fim.
Aos oitenta
e três minutos foi marcado um livre contra o Benfica, ligeiramente sobre a
esquerda do ataque portista. Ademir foi encarregado de marcar, marcou, a bola
bateu na barreira e voltou para trás, onde, de novo Ademir, ao primeiro toque, rematou,
fazendo-a passar por entre uma floresta de pernas, até embater impetuosamente
no fundo da baliza do Benfica.
O que depois
se passou, durante dois ou três minutos, eu não sei, porque, caído no peão, me
vi aflito para tirar duas ou três pessoas de cima de mim, mas o meu pai, que em
Trás-os-Montes seguia o jogo pela rádio – a televisão ainda não transmitia os
jogos do campeonato - contou-me
mais tarde que a explosão do estádio lhe tinha parecido um tiro de canhão, ali
ao pé do ouvido.
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| Ademir |
Quando enfim
me levantei, as bancadas não se viam, de tantas e tantas bandeiras a acenar. No
relvado um magote de jogadores abraçava efusivamente Ademir.
Foi então
que reparei que o cavalheiro à minha direita, a quem eu esmifrara uma
quantidade de cigarros, me olhava perplexo, porque só nessa altura se apercebeu
de que eu não era benfiquista.
O jogo
terminou com o resultado de 1-1, pelo que o Porto se mantinha com um ponto à
frente do Benfica (48-47).
Oito dias
mais tarde, em Lisboa, pela rádio, assisti ao empate do Porto na Académica, por
0-0. Embora o Porto tivesse jogado muito bem, não conseguira ir além do empate,
sendo que a jogada de maior perigo do jogo foi um remate de Freitas do meio
campo, que embateu com estrondo bem no meio da trave da baliza da Académica. Na
Luz o Benfica ganhara naturalmente ao seu adversário do dia.
49-49 era
agora a posição pontual das duas equipas.
Na última
jornada o Porto ganhou nas Antas ao Braga por 4-0, enquanto o Benfica foi
ganhar ao Rio Ave por 1-2, onde chegou a estar a perder por 1-0.
51-51 foi a
pontuação das duas equipas no final do campeonato, campeonato que o Porto
venceu por força do seu “goal avarige”, 81-21, contra 56-11 do Benfica.
Terminara
para o Porto o enguiço de dezanove anos sem ganhar o campeonato e a hegemonia
do clube do regime.
Deixo aqui a classificação do campeonato de futebol da época 1977-1978:
| CLASSIFICAÇÃO |
| TOTAL | CASA | FORA |
| P | J | V | E | D | G | V | E | D | G | V | E | D | G |
1º
|
| 51 | 30 | 22 | 7 | 1 | 81-21 | 13 | 2 | 0 | 55-10 | 9 | 5 | 1 | 26-11 |
2º
|
| 51 | 30 | 21 | 9 | 0 | 56-11 | 12 | 3 | 0 | 31-6 | 9 | 6 | 0 | 25-5 |
3º
|
| 42 | 30 | 19 | 4 | 7 | 63-30 | 11 | 3 | 1 | 36-11 | 8 | 1 | 6 | 27-19 |
4º
|
| 38 | 30 | 16 | 6 | 8 | 42-27 | 11 | 2 | 2 | 30-8 | 5 | 4 | 6 | 12-19 |
5º
|
| 36 | 30 | 14 | 8 | 8 | 25-21 | 9 | 4 | 2 | 15-3 | 5 | 4 | 6 | 10-18 |
6º
|
| 31 | 30 | 12 | 7 | 11 | 33-28 | 8 | 4 | 3 | 19-10 | 4 | 3 | 8 | 14-18 |
7º
|
| 28 | 30 | 10 | 8 | 12 | 36-38 | 6 | 5 | 4 | 22-17 | 4 | 3 | 8 | 14-21 |
8º
|
| 26 | 30 | 11 | 4 | 15 | 41-49 | 9 | 2 | 4 | 28-21 | 2 | 2 | 11 | 13-28 |
9º
|
| 26 | 30 | 8 | 10 | 12 | 29-40 | 7 | 5 | 3 | 20-13 | 1 | 5 | 9 | 9-27 |
10º
|
| 25 | 30 | 9 | 7 | 14 | 26-38 | 7 | 4 | 4 | 18-16 | 2 | 3 | 10 | 8-22 |
11º
|
| 25 | 30 | 8 | 9 | 13 | 25-36 | 6 | 4 | 5 | 12-10 | 2 | 5 | 8 | 13-26 |
12º
|
| 23 | 30 | 8 | 7 | 15 | 22-45 | 7 | 3 | 5 | 15-12 | 1 | 4 | 10 | 7-33 |
13º
|
| 23 | 30 | 8 | 7 | 15 | 29-39 | 7 | 4 | 4 | 21-17 | 1 | 3 | 11 | 8-22 |
14º
|
| 22 | 30 | 8 | 6 | 16 | 30-52 | 8 | 2 | 5 | 21-21 | 0 | 4 | 11 | 9-31 |
15º
|
| 21 | 30 | 6 | 9 | 15 | 23-51 | 5 | 6 | 4 | 16-18 | 1 | 3 | 11 | 7-33 |
16º
|
| 12 | 30 | 5 | 2 | 23 | 24-59 | 5 | 2 | 8 | 15-18 | 0 | 0 | 15 | 9-41 |
-
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Que bem me lembro, carago!