terça-feira, 3 de maio de 2011

Natação * Recordar Teresa Figueiras

Recordamos aqui Teresa Figueiras uma das figuras históricas da natação, uma modalidade que muitas alegrias e títulos tem proporcionado ao FC Porto.

Teresa Figueiras foi multicampeã, internacional, recordista nacional e Medalha de Valor Desportivo do F.C.Porto. Durante a década de 80 destacou-se como uma das nadadoras mais carismáticas da natação nacional e do FC Porto em particular. Depois de abandonar a sua carreira desportiva foi treinadora no FC Porto. Actualmente é professora no ISMAI, não estando ligada ao FC Porto mas, como ela disse numa entrevista ao site fcpnatacao.com em Julho de 2007:
"O meu Desporto é a Natação e o meu clube o FC Porto".

P(fcpnatacao): Fale-nos um pouco de si: onde nasceu, idade, habilitações e a sua actividade profissional actual.
Nasci no Porto (em Paranhos) no dia 14 de Fevereiro de 1965 às 8.00h (hora de muitos treinos pela vida fora…). Sou licenciada em Educação Física e Desporto, Mestre em Ciências do Desporto e Doutoranda em Psicologia do Desporto (tudo pela Universidade do Porto). Hoje em dia sou professora do Curso Superior de Educação Física e Desporto do Instituto Superior da Maia (ISMAI); paralelamente sou professora de actividades aquáticas no Maia Club e coordeno as actividades curriculares e extra-curriculares de natação do Colégio Luso Internacional do Porto (CLIP).
Sou casada com um ex-nadador, também do FCP, José Meinedo e temos uma filha de 6 anos que se chama Francisca.

P(fcpnatacao): Com que idade e onde começou a praticar natação?
Comecei a nadar com 6 anos (a aprender) no FCP. Aos 7 anos era pré-infantil (actual categoria de cadetes), nadadora do Professor Filipe Vaz. Aos 8 anos fui pela 1ª vez à Suiça nadar representando Portugal. Começava a era dos Golfinhos das Antas, da qual me orgulho.

P(fcpnatacao): Lembra-se da primeira sua primeira prova?
Perfeitamente. 25 Costas (que viria a ser a minha técnica nº 1), nadei na pista 8 da antiga piscina (quando os blocos ainda eram de pedra e do lado da piscina média e não do lado do ginásio), fiquei em 1º lugar.

P(fcpnatacao): Desportivamente, qual o seu maior feito?
Não sei bem responder a esta pergunta. Os recordes em diferentes provas, mas principalmente Costas e Estilos, a longevidade desportiva, as universíadas no Japão, as dezenas de competições internacionais (taças latinas, campeonatos da Europa e do Mundo).

P(fcpnatacao): O que lhe deu mais satisfação enquanto nadadora?
O facto de ter pertencido a uma geração que foi, na minha opinião, uma das grandes responsáveis pelo impulso nacional e internacional que a Natação teve nos últimos anos e uma vida desportiva extraordinária em termos de experiências e amizades que condiciona até hoje a minha maneira de pensar e estar na vida. As vitórias e os recordes, claro; também ter feito parte da equipa do FCP que se destacava no espírito de equipa, no carisma, na vontade de vencer e no desportivismo.

P(fcpnatacao): E momentos maus? Também os teve?
Tive. Poucos, mas também eles enriquecedores. O que mais me custou não foi o que não consegui por não ser capaz, foi o que não consegui porque não me deixaram. No topo desta lista está a ausência dos Jogos Olímpicos de Moscovo (era demasiado nova) e dos Jogos Olímpicos de Los Angeles (não houve vontade política, face às circunstâncias especiais do processo).

P(fcpnatacao): Como eram na altura as condições de treino?
Treinávamos mais, principalmente porque as metodologias de treino eram diferentes, o que fazia incrementar as cargas de treino ditas de "resistência" (mais horas de treino); o treino em seco era também mais duro (diria menos eficaz) face aos conhecimentos da altura. De resto tínhamos piscina, ginásio e muita vontade.
As grandes dificuldades de conciliar os estudos com a Natação só apareceram na faculdade, dificuldades estas que me parecem hoje menores, todavia consegui fazer a minha licenciatura a nadar, embora a um nível desportivo mais baixo. 

P(fcpnatacao): Como conseguia conciliar o treino de alta competição com os estudos?
Com determinação, muita organização e algum espírito de sacrifício. Aos jovens de hoje talvez lhes seja pedido, desde mais cedo, que tenham boas notas (os pais também se preocupam com isso mais cedo), mas a verdade é que muitas vezes não organizam a sua vida de modo a manter os estudos sempre em dia. Trata-se de estar atento às aulas, fazer os trabalhos no próprio dia e estudar regularmente.

P(fcpnatacao): Quais eram as suas provas preferidas?
100m Costas, 200 Costas, 200m Estilos e 400m Estilos; e ainda as provas de estafeta, as quais adorava nadar…Mas verdade, verdadinha, eu queria era nadar (e desde que estivesse em forma, sentia prazer em competir).

P(fcpnatacao): Quem eram as suas principais rivais?
Nadei com muitas nadadoras excepcionais que só enriqueceram a minha carreira, não seria capaz de as citar a todas aqui. Interessa dizer que fiz amizade com todas elas e que até hoje mantenho contacto com muitas.

P(fcpnatacao): Conte-nos uma história, uma situação engraçada em que, de alguma forma, se tenha envolvido ao longo da sua carreira como nadadora.
Lembro-me de participar numa das competições internacionais mais importantes da altura em piscina de 25m, o Meetting de Paris (isto no início dos anos 80, já não era propriamente uma caloiraça), e de ter sido apurada para a final A dos 100m Costas. Depois da apresentação dos atletas, já no bloco de partida, comecei a tirar o fato-de-treino e não sei muito bem como, o laço das minhas calças transformou-se em nó, de tal forma apertado que eu não consegui tirar as calças: o cronometrista da minha pista tentou ajudar-me, o da pista ao lado também, e dali a pouco já estava a piscina toda à minha espera (e a rir-se) e eu uma pilha de nervos. Os dois cronometristas tanta força fizeram que acabaram por me puxar as calças para baixo sem desapertar o nó. Fiquei com a pele toda esfolada e deve ter sido por me arder dentro da água que bati mais um recorde nacional.

Teresa Figueiras P(fcpnatacao): O que sentiu quanto terminou a sua carreira como nadadora de competição?
Estou aqui a responder a esta pergunta com os olhos postos numas fotografias (que estão emolduradas) da última prova oficial que nadei, a prova de 4x100m Livres nos meus últimos Campeonatos Nacionais de Verão (foi nos Olivais). Lembro-me de o locutor de serviço ter anunciado que aquela seria a minha última prova e de a minha equipa estar a gritar por mim, e ainda toda a bancada do público e as outras equipas estarem a bater palmas. Íamos em 2º lugar quando parti para o último percurso e apesar de ter feito o meu recorde pessoal aos 100m livres ficámos em 2º lugar (por muito pouco…). Aquele momento foi fantástico, todos os nadadores, todos os treinadores e demais presentes me cumprimentaram e senti-me aí reconhecida dos meus muitos anos de nadadora. Depois veio a nostalgia que rapidamente canalizei em motivação para a minha carreira de treinadora, uma das minhas grandes vocações. Eu continuo a sentir-me “nadadora” na vida. 

P(fcpnatacao): Em que medida a prática da natação de competição influenciou a sua personalidade?
Estou convencida que a minha personalidade e a minha maneira de estar na vida foram muito, mas mesmo muito, influenciadas pela prática da Natação. A capacidade de lutar pelo que quero e contra as adversidades, a garra, a perseverança, a pontualidade, a auto-estima e a alegria são aspectos que aprendi a desenvolver com a prática da Natação e que tento manter até hoje.

P(fcpnatacao) :Teve um Jantar de Homenagem com a presença do Presidente, da Direcção do Clube e de muitos amigos, no qual foi galardoada com a Medalha de Valor Desportivo do F.C.Porto. Que significado teve para si esse importante reconhecimento?
Foi um momento muito importante. Tão importante que o sinto renovado em cada ano que passa. O Sr. Presidente é uma figura que muito admiro, pelo que fez pelo FCP e acima de tudo pelo que tem feito pela Cidade e pelo orgulho de ser do Norte e todos os amigos que estiveram presentes continuam a ser meus amigos. Tal como julgo que já terá ficado implícito, a Natação não é algo que passou, é algo que vive dentro de mim, mesmo não estando hoje directamente ligada à modalidade em termos competitivos, aquele momento foi uma passagem, não um final.

P(fcpnatacao) É casada com José Meinedo, outra glória da Natação do F.C.Porto e têm uma filha, a Francisca. Dar-lhe-ão uma orientação desportiva equivalente à que tiveram?
Para já a formação desportiva é aquela que se faz no ensino pré-escolar com uma modalidade extra, que por acaso não é a Natação, já que a Francisca por motivos de saúde não tem podido (nos últimos 2 anos) praticar regularmente a modalidade. Quando puder, irá obrigatoriamente aprender a nadar e terá que praticar um desporto regularmente. Todavia, a escolha não será nossa, terá simplesmente o nosso apoio, seja numa modalidade de competição ou de recreação.

P(fcpnatacao): Em 1983/84, interrompeu os seus estudos, tendo em vista a preparação para a obtenção de mínimos para as olimpíadas de Los Angeles, o que não veio a acontecer. Como comenta hoje essa opção e que conselho daria a um nadador que persiga actualmente o objectivo olímpico?
Foi uma opção da qual não me arrependo. Recuso sentir-me uma vitima dessa situação e saí reforçada na minha vontade de vencer. Infelizmente eu e os meus companheiros de então não fomos aos Jogos por uma birra de quem detinha na altura o poder nas mãos, mas esta não é a questão. A questão é que devemos lutar por aquilo em que acreditamos e quando se tem a vida académica “em dia” e há consenso familiar, não vejo impedimento para de investir na vida desportiva por um ano ou mesmo dois. A possibilidade de conciliar os vários âmbitos de actividade será mais fácil hoje em dia, mas mesmo assim, quando se ama a Natação, uma presença nos JO deverá valer todos os sacrifícios, desde que legítimos.

P(fcpnatacao): Como vê o futuro da natação no nosso País e particularmente no F.C. Porto?
Com alguma apreensão. Vivemos numa sociedade que tem sofrido grandes mudanças e a prática regular de uma modalidade tão exigente como a Natação não é fácil – aos conhecimentos técnico-científicos do treinador devem ser cada vez mais importantes os seus conhecimentos pedagógicos e humanos, já que é preciso saber motivar os atletas, que têm solicitações de todos os quadrantes sociais e mesmo familiares (muitas famílias não têm como núcleo, uma postura equivalente à necessária para acompanhar um atleta de natação). Os apoios aos nadadores têm que ser efectivos quando se trata de conciliar as vidas académica e desportiva. Por outro lado a questão das instalações, no caso do FCP, parece ser um “contratempo” no desenvolvimento do espírito de equipa e da continuidade de uma tradição que em tempos era inigualável. Na minha opinião, um clube de Natação faz-se com uma escola em que os jovens se cruzam diariamente com os campeões.

E agora, algumas questões colocadas pelos visitantes do nosso site:
P (Nuno Pereira): Qual a melhor forma de conciliar o desenvolvimento da criança/adolescente com a competição em natação, tendo em conta o percurso escolar, o desenvolvimento corporal, a relação com os amigos e de certa forma com toda a estrutura que nos envolve?
O equilíbrio, o bom senso. Considerando o quadro social em que vivemos, eu diria que o essencial é manter as crianças saudáveis física e emocionalmente. Este é um ponto que o desporto não pode esquecer por parte de todos os intervenientes do processo de preparação desportiva dos jovens (pais, dirigentes, treinadores, federações, …). Não podemos fazer campeões isolados do mundo, mas os nadadores têm que saber as consequências da opção de querer ser nadador, principalmente quando se tem talento: não há tantas saídas com os amigos, mas não vão deixar de ter amigos por isso; têm que ser ainda mais organizados com os seus estudos, e serão capazes de ter tão bons ou melhores resultados do que aqueles a quem sobra tempo; é possível que venham a ter alguma lesão, mas isso pode acontecer em qualquer situação desportiva quer competitiva, quer recreativa; e é também possível que tenham uma experiência de vida que valerá para sempre, algo que nem todos os jovens podem experienciar.
O segredo é saber o que se quer e estar inserido num contexto promotor de qualidade desportiva e excelência humana.

P (António Rui Barbosa, capitão da equipa de natação do F.C.Porto): Acredita que ainda poderia dar o seu contributo directo à natação do FCP? De que forma?
Eu sou uma profissional da Educação Física e do Desporto. O meu Desporto é a Natação e o meu clube o FCP, o resto o tempo o dirá.

(fcpnatacao): obrigado Teresa. 




6 comentários:

Armando Pinto disse...

Grande recordação, desta atleta que, junto com a antiga campeã Francelina, entre outras de tempos mais distantes, como mais tarde Paula Santana, e posteriormente Teresa Figueiras (ainda há alguns meses recordada na revista Mundo Azul), são paradigmas do historial mais marcante sector feminino da natação do F. C. Porto.
Grandes recordações também no post anterior, muito bem elaborado, dando ideia do longo e prestigiante percurso da natação Portista.
Parabéns. Está cinco estrelas.
Abraço.

Dragus Invictus disse...

Bom dia Sr Pinto,

Obrigado pelas suas palavras.

A glória é efémera, e temos de recordar estes valorosos atletas para que não caiam no esquecimento e para conhecimento de gerações actuais.

A natação é uma modalidade querida do nosso clube, embora seja muito esquecida pela comunicação social.

Marta Marinho e Sara Oliveira sem desprimor para os outros atletas, são hoje figuras incontornáveis da modalidade a nível nacional.

Nós nos blogues dá-mos "voz" a esta modalidade.

Tenho pena que o atletismo tenha sido suspenso. Esperemos que reabra ... mas para tal têm de alterar os estatutos da federação que impedem atletas comunitários de competir em provas nacionais, e que assim atentam contra o principio da livre circulação de pessoas consagrado nos tratados comunitários.

Uma abraço e boa semana

Paulo

João Miguel Vaz disse...

Parabéns pela entrevista e recordar de outros tempo.s

Dragus Invictus disse...

Bom dia João,

Obrigado pela sua visita ao nosso blogue e comentário.

Tentamos sempre neste espaço dar "voz" às nossas modalidades. Não incidimos apenas no futebol as nossas atenções.

Na barra lateral direita no menu "A força da chama", poderá encontrar mais noticias das modalidades.

Abraço e bom fim de semana

Paulo

luis disse...

Fui aluno da Professora DRª Teresa Figueiras e tenho muito orgulho de me ter ajudado muito no ensino da Natação. Excelente pessoa, Excelente Docente,Excelente Treinadora. foi realmente a Professora Universitária que me marcou e que me motivou para continuar a aprender mais. O meu muito Obrigado e um beijinho grande.
Luís Teixeira

Joao Passos disse...

Sou aluno da professora Teresa Figueiras no ISMAI.
Para além de ter um grande percurso como atleta ė também uma excelente professora.
Conseguimos sentir ao longe o prazer e o gosto que tem pela modalidade, ė e sempre será um orgulho imenso ser seu aluno.
Cumprimentos
João Passos