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domingo, 27 de maio de 2012

O caminho até à final de Viena * Final * Campeões Europeus

Há 25 anos atrás, em  27 de Maio de 1987, o nosso FC Porto conquistou o seu primeiro título europeu de futebol. 

Foi um ano mágico e triunfal que culminou com a conquista da Taça Intercontinental.

Entre 1987 e 1988, conquistamos a Europa e Portugal.
Vencemos a Taça dos Campeões Europeus, Supertaça Europeia, Taça Intercontinental, Campeonato Nacional e Taça de Portugal.

O Estádio do Prater de Viena Áustria, perdura na minha memória. Tinha eu 9 anos, e vivi a maior alegria, da minha vida, enquanto adepto do FC Porto. Nesse dia larguei a fisga, a bola de futebol e a BMX, e sozinho sentado frente a uma televisão ITT a cores :- ), assisti àquela vitória épica!

O nosso adversário era poderoso. Detentor na altura já de 3 Taças dos campeões Europeus, além de inúmeros troféus nacionais e internacionais.
Nomes como Augenthaler, Brehme , Michael Rummenigge, Pfaff e, principalmente, Lothar Matthaus, entre outros, faziam tremer qualquer equipa.
Que o digam o PSV Eindhoven, o Anderlecht e o Real Madrid, todos eles eliminados pelo campeão alemão nessa edição da Taça dos Campeões. Os alemães não ganhavam uma competição europeia há 11 anos, pelo que estavam pressionados pelos seus adeptos que pretendiam o regresso do clube às vitórias internacionais.


Imitar o golo do calcanhar mágico de Madjer, tornou-se nos jogos entre nós miúdos o mais apetecível de se marcar.


Foi nessa altura, que "surgiu" o meu ídolo futebolístico de seu nome João Pinto. 

A sua raça, o amor à camisola, o carácter e o altruísmo dentro do campo, eram um modelo para mim.

Outros amigos meus, reviam-se em Gomes, Futre e Madjer, mas eu apreciava os jogadores guerreiros, o homem de raça, que nem a feijões gostava de perder.


Aquela arrancada de Futre, foi o grito de ipiranga nesse jogo, e a partir daí enfiamos os alemães no bolso e ganhamos o caneco contra todas as expectativas, que nos colocavam como adversário fácil diante do Bayern de Munique ... esquecendo-se que nas meias-finais tínhamos eliminado, a considerada por muitos analistas, melhor equipa de então .. o Dínamo de Kiev.

Depois de vencer-mos o caneco, só me lembro de sair para a rua festejar, e ir "esperar" o meu pai ao comboio, para com ele compartilhar a emoção que vivia.

O relato do jogo na voz inconfundível de Gomes Amaro:




Nasci em 23 de Dezembro de 1978, e já "vivi" 55 títulos!
20 campeonatos nacionais, 12 Taças de Portugal, 18 Supertaças Cândido de Oliveira, 2 Taças dos Campeões Europeus, 2 Taças UEFA, 2 Taças Intercontinentais e 1 Supertaça Europeia.

Já festejei mais títulos que o "paineleiro" mouro Rui Gomes da Silva que é 20 anos mais velho!!!!!

E como disse Luís Vaz de Camões no canto VII d'Os Lusíadas:

"E se mais Mundo houvera lá chegara ... ".


Hoje recordamos aqui os heróis de Viena, que marcaram o início de um ciclo de domínio absoluto no futebol português e de mais conquistas europeias, e que perduram na memória de todos os portistas.



sábado, 26 de maio de 2012

O caminho até à final de Viena * Meia-Final

Continuamos a recordar a caminhada do FC Porto até Viena que culminou com a conquista da Taça dos Campeões Europeus em 27 de Maio de 1987.

Hoje é a vez de recordarmos o jogos das meias-finais disputado diante do Dinamo de Kiev, equipa na altura considerada a melhor da Europa.

Para narrar esta epopeia, iremos transcrever um grande trabalho de 2007, publicado por "guardabel" no "o Pobo do Norte: o pobo mais forte", um blog referência da bluegosfera.


FC Porto 2 - Dinamo de Kiev 1 * 1ª. Mão

O FC Porto venceu o Dínamo de Kiev, por 2-1, na primeira mão da meia-final da Taça dos Campeões Europeus de 1987. Face ao poderio dos campeões soviéticos, uma vitória é sempre facto a registar, mas o golo de Yakovenko destruiu muitas esperanças na passagem à final de Viena. Daqui a 15 dias saber-se-á se o iremos conseguir...


Ficha do jogo:

Estádio das Antas, 08/04/1987 
Assistência: Cerca de 80.000 pessoas

Árbitro: Jan Keizer (Holanda)

FC Porto: Mlynarczyck; João Pinto, Lima Pereira, Celso e Eduardo Luís; Jaime Magalhães, André, Sousa e Vermelhinho; Gomes e Futre.
Subs: Sousa e Jaime Magalhães por Juary e Madjer, respectivamente.
Suplentes não utilizados: Zé Beto, Inácio e Semedo.
Treinador: Artur Jorge

Dínamo de Kiev: Tchanov; Baltacha; Bal, Kuznetsov e Demianenko; Yakovenko, Zavarov, Mikhailitchenko e Rats; Belanov e Blokhine.
Subs: Blokhine e Belanov por Morozov e Yevseyev:
Suplentes não utilizados: Bessonov, Gorili e Mikhailov
Treinador: Valeri Lobanosvski

Amarelos: Bal, Tchanov e Futre. Duplo amarelo: Bal



Os golos, descritos pelos jornais desportivos:

Record: 1-0 aos 49 mins por Futre, após excelente jogada do nº 10 portista pelo lado direito e que, depois de se ter desembaraçado de vários adversários, acabou por fazer um centro-remate com a bola a tocar (ainda) num defensor do Dínamo antes de entrar na baliza (O jornal O Jogo considera o golo como sendo de Kuznetzov, na própria baliza).

A Bola: 1-0: Grande jogada de Paulo Futre, na direita, furando por entre Demianenko e um outro jogador soviético a bola é tocada por Kuznetzov, mas o ressalto fá-la ir para o portista. Por alto, é batida para a baliza dando-nos até a ideia de que fora um soviético. Entra por alto.

Record: 2-0, aos 56 mins, por André, na transformação de uma grande penalidade a punir uma mão de Kuznetzov após a marcação de um pontapé de canto também por Futre.

A Bola: 2-0: Futre foi ao lado direito marcar um canto, a bola partiu por alto e Kuznetzov, pertyurbado com a presença de um portista, meteu mão â bola. Penalty que André transformou.

Record: 2-1 aos 74 mins, por Yakovenko, numa magnífica antecipação de cabeça a uma bola que estava ao alcance de Celso.

A Bola: 2-1: Cruzamento da esquerda sobre a grande-área do FC Porto, por alto. Celso tem a bola à frente, hesita, espera que ela venha ao seu encontro. Não vai. Yakovenko antecipa-se-lhe e, de cabeça, desvia a bola, rasteira, para entrar junto ao poste esquerdo.

Dinamo de Kiev 1 - FC Porto 2 * 2ª. Mão

A 17 de Abril, o FC Porto bate o Vitória de Guimarães por 5-0, no Estádio das Antas, em partida dos quartos-de-final da Taça de Portugal. Os golos são apontados por Madjer (2), Lima Pereira, Futre e Gomes. Esta vitória assume particular significado porque foi obtida contra um clube que tinha empatado 2-2 nas Antas para o campeonato e se assumia como candidato ao título. E depois, este seria o último jogo antes da ida a Kiev. As crónicas da altura falam no melhor jogo da época por parte do FC Porto.

O jornal A Bola intitula a 20/04: "É OBRIGATÓRIO REEDITAR EM KIEV O ESPECTÁCULO "ESPLENDOR NAS ANTAS".

A nível interno, os jornais dão conta da rescisão do brasileiro Elói, um jogador de enormíssima qualidade que nunca se conseguiu impor no onze titular.

Os convocados para Kiev são, entretanto, conhecidos: Mlynarczyk, Zé Beto, João Pinto Lima Pereira, Celso, Eduardo Luís, Festas, Jaime Magalhães, André, Vermelhinho, Frasco, Quim, Juary, Madjer, Gomes, Futre e Paulo Ricardo. Saem Semedo e Inácio por opção.
Da União Soviética chegam notícias de que o Dínamo perdeu o último jogo para o campeonato, mas poupou muitos titulares para o jogo da Taça dos Campeões. Bal não jogará contra nós por ter sido expulso no jogo da primeira mão.

O FC Porto chega a Kiev com uma temperatura surpreendentemente agradável para o local em questão.

O Jogo de 21/04 apresenta os seguintes títulos: "FC Porto não treme nem de frio" – "Sete graus à chegada a Kiev"; "Temperatura amena faz subir a confiança".

A confiança é de facto grande, apesar de se saber que a lotação de 100 mil lugares está há uma semana esgotada. De Portugal, prevê-se que três aviões levem cerca de 500 adeptos portistas até Kiev.
A comitiva portista leva mais 600 kg de bagagem por causa da alimentação, uma vez que o desastre de Chernobyl motiva ainda preocupações na Europa.
O médico do FC Porto, Dr. Domingos Gomes, explica: "Tivemos obviamente de nos rodear dos maiores cuidados com esta deslocação, especialmente em matéria de alimentação." No que diz respeito a lesionados, o quadro clínico está desanuviado, excepção feita a Gomes, que partiu um dente no jogo da Taça, mas é recuperável.

Declarações de Octávio: "Concentração e rigor são necessários"; "Temos uma grande equipa europeia, de nível mundial, que se tem vindo a impor à custa de muito trabalho, de muita dedicação, no prosseguimento de um projecto que vem tomando forma de há alguns anos a esta parte."

Declarações de Futre: "...acho que teremos de marcar golos para chegar à final. E não me admirava nada que o FC Porto saísse vitorioso da União Soviética."; "Acho que a arma forte deles é o contra-ataque. Tinha mais medo do jogo das Antas do que do jogo de Kiev, porque em Kiev teremos de jogar mais fechados e o Dínamo não terá oportunidade de fazer funcionar esse terrível contra-ataque."

A 20/04, A Bola publica a seguinte manchete: "FC Port...ugal – Vamos atravessar a antecâmara de Viena"

Nas páginas interiores, Vítor Santos, escreve: "Ao FC Porto pede-se a última proeza, mas tem de se reconhecer que já fez muitas!" – "Kiev é a antecâmara de Viena e não haverá milagre nenhum se os campeões nacionais conseguirem atravessá-la".

O Record de 21/04, véspera do jogo praticamente ignora o jogo, preferindo dar destaque ao sorteio das meias-finais da Taça de Portugal. No cantinho inferior esquerdo, a notícia sobre o FC Porto é a de que... "Zé Beto deixa as Antas" na próxima época.

Nas páginas interiores do Record, revela-se que a eliminação do Dínamo poderá dar prémio de 1000 contos e Juary promete "marcar um golo à União Soviética".

O JOGO de 22/04, dia do confronto, intitula: "Em frente dragões!" E no interior, pede-se "Um coro afinado na terceira catedral". Só como um coro afinado, poderá o FCP chegar à final de Viena.

O enviado-especial de O Jogo, Faria de Morais, escreve que "Os kievitas andam apreensivos com o aspecto "emotivo" do futebol português, que nunca se sabe para que lado se virará", se para o positivo (empolgamento) ou negativo (indisciplina táctica e desorientação)".

Artur Jorge joga "à defesa", não relevando o 11 que entrará em campo. E acrescenta: "Uma final não cai do céu – tem de ser procurada"; "Defrontar o Dínamo é um exercício extremanente cuidadoso e rigoroso. Actuaremos em Kiev com um espírito intervencionista: as finais europeias não caem do céu, provocam-se. A atitude passiva terá de ceder lugar ao espírito ganhador."

O presidente Pinto da Costa afirma: "...creio que o FC Porto está a atravessar um bom momento, as lesões vão diminuindo e, por isso, penso que vamos acabar a época da melhor maneira. Por isso, espero que, frente ao Dínamo de Kiev, a equipa renda o máximo, em concentração, em personalidade e em determinação. Se assim for, estou convencido de que conseguiremos o nosso grande objectivo."

Lobanovsky diz-se "optimista" porque "nada se consegue fazer sem optimismo". "O jogo será "extremamente difícil para nós mas também não será fácil para o FC Porto", elogiando Gomes, Futre e Juary, "muito engenhosos, capazes de por a cabeça em água a qualquer defesa."

O relvado do estádio de Kiev motiva algumas preocupações: "Tapete do estádio central fica aquém da sua dimensão" – "carecadas não favorecem os esquemas portugueses"

Estádio da República da Ucrânia, em Kiev, 22/04/1987
Assistência: Cerca de 100.000 pessoas
Tempo seco e fresco. Relvado em mau estado e irregular

Árbitro: Ronald Bridges (Gales)

Dínamo de Kiev: Tchanov; Baltacha, Bessonov, Kuznetsov e Demianenko; Yakovenko, Zavarov, Mikhailitchenko e Rats; Belanov e Blokhine.
Subs: Baltacha e Belanov por Gorily e Evtuchenko.
Suplentes não utilizados: Morozov, Yevseyev e Mikhailov.
Treinador: Valeri Lobanosvski

FC Porto: Mlynarczyck; João Pinto, Lima Pereira, Celso e Eduardo Luís; Jaime Magalhães, André, Quim; Madjer, Gomes e Futre.
Subs: Madjer e Futre por Frasco e Juary, respectivamente.
Suplentes não utilizados: Zé Beto, Vermelhinho e Paulo Ricardo
Treinador: Artur Jorge

Golos:
Celso (4 mins.)
A Bola: "A bola tabelou num jogador soviético da barreira, formada à entrada da área, e entrou na baliza da Tchanov."
Record: "Celso, na marcação de um livre a castigar falta sobre Futre, como defesa brasileiro a arrancar um "tirão" que traiu o keeper soviético depois de tocar num defensor do Dínamo."

Gomes (10 mins.)
A Bola: "Canto marcado na esquerda por Madjer, com o pé esquerdo, o esférico sobrevoou a pequena-área do Dínamo, ninguém lhe tocou, e Gomes, perto do poste direito, marcou de cabeça."
Record: "Gomes, a seguir a um canto apontado do lado direito por Madjer, com a defesa soviética estática e abola a sobrar para a cabeça do capitão portista, muito lesto (e intencional) no seu cabeceamento."



Declarações dos intervenientes:

ARTUR JORGE: "Viemos aqui, a Kiev, com espírito positivo, com a intenção de fazer um golo. Estes jogadores merecem que se lhes tire o chapéu. Conseguimos um desafio brilhante, aliando o rigor táctico e a disciplina ao entusiasmo, à imaginação e elan."

LIMA PEREIRA: "Jogámos aqui como mais nenhuma equipa o faria. Com grande personalidade e categoria. Aos 35 anos, sinto-me tremendamente feliz. Estou na plenitude das minhas faculdades e atingi o sonho almejado: uma presença na final da Taça dos Campeões Europeus." (nota: Lima Pereira lesionar-se-ia gravemente... e falharia a presença em Viena.)

ANDRÉ: "Talvez não tenhamos feito um jogo bonito. Mas cumprimos o que estava estipulado tacticamente. Batemo-nos com inteligência e humildade."

PINTO DA COSTA: "Conseguimos o que mais nenhuma equipa do mundo conseguiria. Provámos a nossa categoria aos detractores. Mas hoje quero esquecê-los. Dedico esta vitória aos sócios que estão sempre com a equipa."; "Acabo de viver um momento inolvidável e que ficará para sempre gravado a letras de ouro na história do FCP. Há cinco anos, quando me candidatei, a palavra de ordem era: "SE QUERES UM FCP EUROPEU, VOTA EM PINTO DA COSTA." "Hoje, volvidos os tais cinco anos, conseguimos realmente fazer de um FCP descrente um FCP vitorioso, um clube com uma bem visível dinâmica de vitória. Por isso estou feliz, como julgo estarem felizes todos os portistas e, afinal, todos os portugueses."; "Este êxito do FCP é a melhor resposta àqueles que tanto o atacaram e não o respeitaram como deviam."

GOMES: "Esta foi a vitória da nossa classe e o Dínamo teve de se render a ela!"; "Pusemos o Kiev... KO, embora reconheça que não há campeões sem sorte".; "Quero dedicar esta vitória a todos os portugueses do futebol e a todos os portistas, já que defino este êxito como um triunfo de toda a nossa classe. Embora felizes, aqui e acolá, a verdade é que vencemos uma grande equipa, constituída por grandes senhores do fiutebol mundial."

LOBANOVSKI: não foi à conferência de imprensa.

APÓS O JOGO
A 23/04, o jornal O Jogo apresenta a seguinte manchete: "FC Porto é finalista" – "Só falta vencer o Bayern em Viena (27 de Maio)".

A crónica de Faria de Morais tem o seguinte título: "A personalidade e o saber de um batalhão sem medo". Escreve o jornalista sobre Artur Jorge: "E se muitos ainda duvidavam das qualidades do técnico portista, a forma como armou a equipa que se apresentou no maltratado relvado de Kiev, apostando claramente na discussão do jogo em todo o campo, mostra que o técnico portista sabe correr riscos, conhece até ao pormenor os jogadores que tem, é sem dúvida o grande obreiro desta inesquecível jornada de Kiev".
Na análise individual aos jogadores: "Mly, Celso, Gomes e Futre num todo à medida da Europa". Sobre o Dínamo: "Só Mikhailitchenko encontrou o para da mina" – "A defesa do Dínamo nunca viu Futre...".
Na reportagem sobre a festa na cidade, os títulos: "...E agora querem ser campeões europeus" – "Triunfo dos Dragões enlouqueceu a cidade"

A crónica de Aurélio Márcio intitula "A VELHA VIENA DOS ROMANCES À ESPERA DO CAMPEÃO PORTUGUÊS – O começo fulminante do FCP tornou fácil o que parecia difícil."
Excertos:
"O primeiro trunfo e o primeiro êxito do FC Porto terá estado, precisamente, em fazer o contrário daquilo que toda a gente (os técnicos e os jogadores ucranianos) esperavam. E o que eles esperavam era, muito naturalmente, muito logicamente, que o FCP aparecesse ali, não diremos transido de medo, mas receoso e prudente, de defesa muito cerrada, pelo menos até que passasse a primeira rajada do temporal soviético. Ao invés disso, um golo, dois golos! Fulminante! Quem pode resistir a um golpe deste tamanho?"
"Em conclusão: muito antes de o jogo acabar, já o destino do Dínamo e do FCP estavam irreversivelmente traçados. O silêncio gélido da multidão era a confissão antecipada da derrota; a falta de chama e de crença dos seus jogadores, um gesto de submissão inesperado, mas realista. O FC Porto vencia e convencia. O FC Porto estava na final. E agora, Viena! Vamos a Viena! Para ganhar o título de campeão europeu? Tem a palavra o FC Porto."
Na análise aos jogadores do FC Porto, pode ler-se: "FUTRE – UM TERRORISTA NO PAÍS DOS SOVIETES" – "Uma equipa bem orientada, feliz e com um plano de jogo bem executado".
Quanto ao Dínamo... "Uma defesa muito má e um notório desequilíbrio físico" – "Há qualquer coisa que falta às equipas soviéticas que não conseguem manter uma establidade atlética exigível com a alta competição."

Álvaro Braga faz reportagem na cidade do Porto: "O Porto é uma naçon, carago e, agora, venha lá a final de Viena" – "Das quatro às seis, tudo parou, voltando a parar às oito para recomeçar às dez e se estender pela madrugada e até Pedras Rubras, para receber os bravos do pelotão".
Realce ainda para um pequeno texto que dá conta do descontentamento portista em relação às arbitragens de Carlos Valente, a nível interno.

O título que o jornalista de A Bola escolhe não é inocente: "Queixas à moda do Porto: O árbitro Carlos Valente já dirigiu sete jogos do Benfica – lamento dos portistas que se sentem discriminados no sector da arbitragem."

A 24 de Abril, o jornal O Jogo publica a seguinte manchete:









O contraste é visível com o jornal Record do mesmo dia, cuja manchete é esta:












Realmente, era muito mais importante o não dos jogadores do Benfica à selecção do que o apuramento do FC Porto para a final da Taça dos Campeões... Enfim.

Carlos Arsénio, na sua crónica, intitula: "Soviéticos ko com táctica de Artur Jorge".
No interior, a festa portista é descrita com o seguinte título: "Arraial pintado de azul e branco em autêntica noitada de S. João".
Na análise aos jogadores, o destaque vai para o nosso guarda-redes: "Polaco Mlynarczyck foi o homem de Kiev" – "Num FC Porto, onde Gomes foi capitão, patrão e... marcador"

Capa de A Bola de 25 de Abril de 1987:










E agora… vemo-nos em VIENA!

sexta-feira, 25 de maio de 2012

O caminho até à final de Viena * Quartos-de-Final

Vamos aqui recordar a caminhada do FC Porto até Viena que culminou com a conquista da Taça dos Campeões Europeus em 27 de Maio de 1987.

Iremos começar pelo jogo dos quartos-de-final disputado diante do Brondby da Dinamarca.

Para narrar esta epopeia, iremos transcrever um grande trabalho de 2007, publicado por "guardabel" no "o Pobo do Norte: o pobo mais forte", um blog referência da bluegosfera.

FC Porto 1 – Brondby 0 * 1ª Mão

Porto, 04/03/1987

Estamos em finais de Fevereiro do ano de 1987. A equipa do FC Porto prepara os quartos-de-final da Taça dos Campeões Europeus. Os dinamarqueses do Brondby são o adversário a ultrapassar. A expectativa de chegar pela primeira vez às meias-finais da maior competição europeia de clubes é enorme, até porque a Dinamarca não tem "peso" europeu a nível de clubes.

O caminho até aqui foi relativamente fácil. Dizimámos os campeões malteses, Rabat Ajax, com um total de 10-0 (1-0 lá e 9-0 cá), e os campeões checos, Vitkovice, com derrota por 1-0 lá e vitória por 3-0 cá.

Ebbe Skovdahl é o técnico do campeão dinamarquês e desloca-se a Vidal Pinheiro, em 22 de Fevereiro, para espiar o FC Porto. Ganhamos por 3-0 (golos de Sousa, André e Gomes). Na sua observação do jogo, Skovdahl destaca Futre como "um jogador impressionante, com as suas arrancadas mirabolantes". Segundo o dinamarquês, a tarefa vai ser complicada até porque o FCP tem mais traquejo internacional e até já disputou uma final europeia.

Neste jogo de Vidal Pinheiro, o Salgueiros autorizou o Brondby a filmar o jogo (para posterior análise da equipa do FCP), o que deixou Pinto da Costa irritado... Outro motivo de irritação, este a nível interno, prende-se com as constantes ausências de Madjer ao serviço da selecção argelina, o que fez, por exemplo, com que estivesse ausente de um dos jogos fulcrais deste ano, com o Guimarães, nas Antas.

A nível interno, o FC Porto não atravessa uma fase positiva. Para além do já referido "caso-Madjer", a equipa vive um momento de quebra nas últimas jornadas, com derrota na Luz, empate em casa com o Vitória e vitória em Chaves com exibição pouco conseguida . Durante uma pausa no campeonato, o FCP disputa o torneio Sonangol, em Luanda, tendo ficado em 5º lugar. Em Paris, joga um particular com o Racing (no âmbito da transferência de Madjer) e empata 0-0. Ainda na capital francesa joga um torneio de futebol de salão, onde alcança o terceiro lugar. A propósito deste mau momento, escreve João Cartaxana no Record de 22-02: "FC Porto: quebra inesperada ou baixa de forma programada?"

Artur Jorge passa ao ataque, em entrevista a O Jogo, de 27/02: "Há um clima de histerismo à volta do FC Porto". Nesta entrevista, o rei Artur denuncia aqueles que ainda não se habituaram à ideia de que o FC Porto é superior e, naturalmente, ganha mais vezes que os outros. Também ele já observou o Brondby. Na sua opinião, eles são uma equipa jovem, rápida e atrevida.

A 28 de Fevereiro, no último jogo antes de receber o Brondby, o FC Porto bate a Académica por 1-0, com golo de livre directo, aos 85 minutos, por Madjer (saído do banco).

O Record faz manchete: "Madjer evita escândalo". A Bola escreve: "FC Porto vence... in extremis", e no interior: "Estado de emergência nas Antas... até chegar a magia de Madjer".

O Jogo intitula: "D. Sebastião veio... da Argélia". A equipa não parece bem e os adeptos começam a temer o pior.

Para o Brondby, trata-se de uma estreia a este nível, tendo na presente edição eliminado o Honved e o Dínamo de Berlim. O campeonato dinamarquês está parado, mas a equipa fez uma digressão por Inglaterra, pelo que não está sem ritmo de jogo.

Trata-se de uma equipa muito jovem, com jogadores sem experiência internacional. O guarda-redes é um deles. É neste momento o segundo redes da Dinamarca, atrás de Rasmussen, e todos lhe auguram um grande futuro. O seu nome: Peter Schmeichel.
Na defesa pontificam jogadores como Ole Madsen, Lars Olsen e Kent Nielsen, este o patrão do sector mais recuado. Os médios John Jensen e Henrik Jensen dominam o meio-campo. Henrik é a estrela da companhia, e dele se diz estar muito perto do Valência. Na frente, Claus Nielsen é o avançado mais perigoso, mas Kim Vilfort não lhe fica atrás.
Com 18 anos, um tal de Brian Laudrup promete seguir as pisadas do seu irmão mais velho (que joga na Juventus).

Em 28 de Fevereiro, A Bola entrevista as "vedetas" do Brondby e faz o título: "Vamos eliminar o FC Porto... apesar das dificuldades / A nossa equipa não tem experiência, mas é muito boa".

Declarações dos jogadores:
- Henrik Jensen: "Penso que Gomes era um goleador temível anos atrás, agora não. Casagrande é melhor, mais novo, mais forte, mais difícil de travar."
- John Jensen: "Sei que o FCP é uma equipa muito boa em casa e que tem três jogadores muito bons no meio-campo e um esquerdino extraordinário... Futre!"
- Kent Nielsen: "Gomes é muito perigoso; tem o "faro" do golo. Pode não se ver durante 80 minutos, mas aparece a marcar um golo decisivo".

Em 3 de Março, o Record publica as últimas declarações de Artur Jorge antes do jogo: "Precisamos que o público nos apoie". O nosso treinador leva 18 jogadores para estágio: Zé Beto, Amaral, João Pinto, Celso, Eduardo Luís, Festas, Laureta, Bandeirinha, André, Gomes, Futre, Madjer, Casagrande, Juary, Eloi, Frasco, Jaime Magalhães e Sousa.

Ficha do jogo:

Estádio das Antas, 04/03/87
75.000 (segundo o Record) Grande assistência (segundo A Bola)

Árbirtro: Gerard Biguet (França)

FCP: Zé Beto, João Pinto, E. Luis, Celso e Laureta; Frasco, André e Sousa; Madjer, Gomes e Futre.
Subs: Sousa por Casagrande (45mins), Frasco por J. Magalhães (67 mins)
Suplentes não utilizados: Amaral, Festas e Quim.

Brondy: Schmeichel; Madsen, Olsen, Kent Nielsen e Ostergaard; Steefensen, B. Jensen e H. Jensen; C. Nielsen e Vilfort.
Subs: C. Nielsen por Hansen (61mins) e H. Jensen por Laudrup (80mins)

Amarelos: Frasco, Vilfort, B. Jensen e Laureta.

Golo: Madjer, aos 70 minutos.


Vídeo do canal do youtube memoriassporting

Descrição do golo pelo Record: "Jaime Magalhães entregou o esférico a João Pinto e o defesa-direito das Antas, rapidamente, endossou-o ao argelino, o qual atirou rasteiro para o fundo das redes."

Descrição do golo por A Bola: "Iniciativa de João Pinto que leva a bola quase à entrada da grande-área, metendo-a bem à frente de Madjer. O internacional argelino, desviado para a meia-direita, dominou-a e com o pé direito bateu Schmeichel, quando ele saiu da baliza."

Brondby 1 - FC Porto 1 * 2ª Mão

Kobenhavns Idratspark, 18/03/87

O FC Porto prepara-se para jogar a segunda mão dos quartos-de-final da Taça dos Campeões Europeus com o Brondby. No fim-de-semana anterior disse praticamente adeus ao título ao perder em Portimão por 1-0, enquanto o Benfica vencia em Guimarães por 2-1. Quatro pontos separam agora os dois primeiros, numa altura, lembre-se, que a vitória vale 2 pontos. Missão quase impossível. Daí que este jogo na Dinamarca assuma importância fundamental na tentativa de salvar a época.

Em relação à primeira mão, Artur Jorge faz quatro modificações no 11. Saem Zé Beto, Eduardo Luís, Laureta e Madjer, entrando Mlynarczyck (após 2 meses ausente por lesão) Lima Pereira, Inácio e Casagrande, respectivamente.

Ficha do jogo:
 
Kobenhavns Idratspark, 18/03/87

Árbirtro: Lajos Nemeth (Hungria)

FCP: Zé Beto, João Pinto, Lima Pereira, Celso e Inácio; Frasco, André e Quim; Casagrande, Gomes e Futre.
Subs: Casagrande por Juary (14mins), Frasco por Eduardo Luís (74 mins)

Brondby: Schmeichel; Madsen, Olsen, Kent Nielsen e Ostergaard; Steefensen, Bjorne Jensen, Henrik Jensen e John Jensen; Claus Nielsen e Vilfort.
Subs: Bjorn Jensen por Bryan Laudrup e H. Jensen por Tommy Christiensen (aos 72 mins)

Amarelos: Frasco, Quim e Madsen.

Golos: Steffensen (36 mins) e Juary (69 mins)
Aos 15 minutos, a lesão de Casagrande revelar-se-á decisiva para o desenrolar do jogo, uma vez que dará lugar à entrada de Juary, o marcador do golo do empate. Frasco e Quim ficam impedidos de jogar a primeira mão das meias-finais em virtude do 2º amarelo que levaram hoje. Casagrande também será baixa, uma vez que a sua lesão se revela bastante grave: rotura de ligamentos no tornozelo e fractura do perónio. Todos os jornais desportivos destacam a arbitragem demasiado caseira do árbitro.


Vídeo do canal youtube do blog Basculacao.blogspot.com

Às 2 e 15 da madrugada, o avião aterra no Aeroporto de Pedras Rubras, onde algumas centenas de adeptos esperam a comitiva em clima de grande euforia. É a primeira vez que o clube atinge as meias-finais da Taça dos Clubes Campeões Europeus. E nesta fase, há três hipóteses, qual delas a pior: Bayern de Munique, Real Madrid e Dínamo de Kiev.

Descrição do golo de Juary pelo Record: "Quim lançou Juary em profundidade, o brasileiro bateu Olsen em corrida, isolou-se, e bateu Schmeichel."

Descrição do golo por O Jogo: "O combativo médio portista (Frasco) levantou a cabeça e (nem sempre foi assim) não perdeu tempo. Juary estava perto, como que a pedir a bola. Ela chegou-lhe bem na hora. "Velocidade de ponta", o defensor contrário a ficar pelo caminho, e o brasileiro das Antas, já dentro da grande área, sobre o flanco direito, a concluir o sprint com um disparo colocadíssimo, a fazer entrar a bola, como uma flecha, pelo buraco da agulha. De nada valeu o mergulho tardio de Schmeichel. Acabava praticamente aí o jogo."

Descrição do golo por A Bola: "Excelente abertura de Frasco, solicitando Juary, o qual, após sprint pela direita, disparou rente à relva entre o corpo do guarda-redes e o poste esquerdo."

Títulos dos jornais desportivos:

O Jogo – 19/03
Título de primeira página: "SALVÉ FC PORTO!"
Sub-título: Belo golo de Juary coloca campeões nas "meias"
Título do texto: Juary: "seta" envenenada

Record – 20/03
Título de primeira página: "Casagrande no hospital: Qualificação do FC Porto aliviou-me as dores".
Título do texto: Era um crime não aproveitar esta oportunidade de fazer história.
Como jogaram os portistas: Mlynarczyck, André e Juary – a classe além da combatividade.

A Bola – 19/03
Títulos de primeira página: FC PORTO entre os quatro "maiores" da Europa; "Juary – Mais uma vez a "arma secreta" do campeão nacional"
Título do texto: "Golaço" de Juary conseguiu travar um verdadeiro vendaval escandinavo (... e serviu de prémio, não à perturbada exibição portista, mas à forma briosa como a equipa portuguesa se bateu)"
Como jogou o FC Porto: Mlynarczyck, Juary e Futre – os principais obreiros da qualificação. (um golo consentido, que tudo complicou, e um golo feliz, que colocou os portistas nas meias-finais da prova)

Rui Martins, de O Jogo: "Qual crise? Em Copenhaga, p FC Porto foi igual a si próprio: soube ser humilde, não acusou o golo sofrido, reagiu com personalidade e revelou-se uma equipa de marca europeia."
"Futre fez jus ao epíteto de "perigo público" com que o rotularam os jornalistas dinamarqueses, ora pela esquerda ora pela direita, criando espaços, fintando, inventando."

Santos Costa, do Record: "Logo no início o árbitro apostou em intimidar o FC Porto e o amarelo saltou logo no primeiro minuto, quando, com cara de poucos amigos, colocou a cartolina à frente dos olhos de Frasco".

Declarações dos intervenientes:

Artur Jorge: "Julgo que ninguém ficou com dúvidas quanto à nossa superioridade"; "FC Porto nas meias-finais não é uma vitória minha, mas uma vitória de todo o clube"; "Provámos que é necessário ser uma equipa experiente para eliminar adversários deste tipo. Experiência e rigor táctico são fundamentais nestas ocasiões e a nossa equipa provou-o".

Pinto da Costa: "A um passo da final..."; "Serve qualquer adversário. Que venha o diabo e que escolha"; "Aqueles que têm pretensão em destruir o nosso trabalho, terão ficado desiludidos com esta bela exibição do FC Porto. Precisamos agora do máximo apoio do público, porque temos uma grande oportunidade de estarmos presentes na final."

Juary: "Só quando vi a bola entrar, acreditei que era golo. Até me aperceber disso, fiquei parado. Depois explodi de alegria."; "Corremos que nem uns cabritos. Nesta altura de alegria não me quero esquecer dos meus companheiros que ficaram em Portugal, e que, de longe, certamente torceram por nós."