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sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Futebol ou futecnobol?


Aproveitando esta pausa no campeonato, permitam-me que traga aqui uma matéria que nos deve fazer pensar a todos
Depois de Dias da Cunha lançar a guerra contra o “sistema”, manigância que nunca ninguém provou existir, mas que em surdina punha em causa as vitórias do FC Porto, tem-se vindo, desde algum tempo a esta parte, a falar da “verdade desportiva”, tendo o nosso clube igualmente por alvo.

O MEDONHO SISTEMA DO FC PORTO

Verdade desportiva que, diga-se em abono da verdade, só o Benfica reclama, para justificar o facto de, nos últimos vinte anos, só ter ganho três campeonatos contra quinze do Porto


O ADVOGADO DA "VERDADE DESPORTIVA"

A partir daí enxovalha-se um árbitro com a maior das impunidades.
Os árbitros não se enganam, roubam, não arbitram, vendem-se, não são árbitros, são gatunos.


NÃO SÃO ÁRBITROS,  SÃO GATUNOS

Vai daí, os que perdem, porque são mais fracos ou incompetentes, erguem a bandeira da tecnologia e aliam-se àqueles que, infelizmente, já um pouco por toda a parte querem ver o futebol transformado num jogo de robots ou de playstation.


JOGO DE ROBOTS

É muito triste.
O futebol é incerteza, é engano, é opinião, é a adrenalina da discussão e do desabafo. Sem isso o futebol transforma-se numa coisa insípida, monocórdica, virtual e matemática.
Mesmo que os árbitros, de vez em quando, não consigam deixar de favorecer o clube da sua predilecção, também isso é jogo e contribui para frenesim da luta.
O melhor dos jogos é o dia seguinte, quando se discute na televisão, na rua, nos empregos no supermercado ou no café, aquele fora de jogo que não foi, aquele penalti que não era penalti, aquela mão na grande área que o árbitro não viu, aquela expulsão que uns dizem justa e outros dizem que não, aquela palavra que o árbitro entendeu como insulto, aquele vermelho que era amarelo, e o amarelo que era vermelho, aquele insulto da bancada , aqueles murros cá fora, aquele isqueiro para o relvado, aquele presidente que não cumprimenta o outro, aquela claque que às vezes se passa da cabeça, aquele apanha-bolas que demorou a atirar a bola para o relvado, tudo isto é bola, tudo isto é jogo, tudo isto é futebol.


FUTEBOL É PARA SER DISCUTIDO NA MESA DO CAFÉ

Ponham no Estádio da Luz uma águia electrónica, com um olho de longo alcance,

VISÃO DE LONGO ALCANCE


ponham uma rede fotoeléctrica à face da baliza, 

ASSIM, SIM!

metam nos queixos do árbitro um apito ligado à Comissão de Arbitragem,

UM APITO LIGADO À COMISSÃO DE ARBITRAGEM


liguem a linha de golo ao relógio do árbitro,


GOOOOLOOO!

calcem os jogadores com chuteiras voadoras,


CHUTEIRAS DE VOAR


substituam-se os árbitros por um robots,


ÁRBITRO ROBOT 


e os guarda-redes também,


ROBOT À BALIZA


mas não contem comigo dentro de qualquer estádio!


NÃO CONTEM COMIGO!

Por favor, lutem contra a tentação cibernética, que começa a ter muitos defensores.
Não matem o futebol nem antecipem o séc. XXXI, que já se espera bigbraderiano, seco e mecanicamente inútil.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

FUTEBOL ENTRE 4 PAREDES

Na década de 80, acompanhava o FC PORTO pela rádio, através da voz de Gomes Amaro no Quadrante Norte. Nessa década eram poucos os jogos do meu clube que passavam na RTP. 
O meu pai ia sempre às Antas com os meus tios e primos, mas eu ficava em casa com as mulheres (mãe, tias e primas) a ouvir o relato e a gritar GOOOOOOOLO DO POOOORTOOOO. 
Eu era deficiente (e sou). Mentalidades. 
Que me lembre, em pequeno, fui uma vez ao estádio, num jogo contra o Beira Mar. Na década de 90, os relatos continuaram mas já dava o Porto mais vezes na TV e já ia às Antas com a família sempre que ganhávamos o campeonato. 
Lembro-me dum Tirsense, dum Salgueiros e outras tardes de festa. 
Quando surge a Sport TV, os meus pais não tinham dinheiro para pagar o canal, mas já tínhamos TV Cabo analógica e eu acompanhava os jogos codificados com fitas a correr psicadelicamente, fazendo parecer que estavam 44 jogadores em campo chutando uma bola quadrada. 
Quando descodificavam o canal nos últimos 15 minutinhos, era uma alegria. 
Em 1998, tive o meu primeiro PC com Windows, comprei uma placa TV e com um software específico e alguma perícia, et voilá, tinha a Sport TV descodificada... 
No início dos anos 00, a minha irmã, já adulta, percebeu que o Porto era a minha felicidade e começou a levar-me com regularidade às Antas, até porque deficientes e acompanhantes não pagavam e a minha mana empurrava-me a cadeira debaixo de sol, chuva, calor ou frio, intempéries que não paravam quem por gosto corria. Linda menina, literalmente! 
Nas saudosas épocas de 2002-03 e 2003-04, fomos a todos os jogos europeus em casa, e aos principais confrontos internos. Na nossa única derrota na Champions que ganhamos, estive duas horas debaixo duma chuva torrencial, mas nem galáticos conseguiram atenuar os meus sonhos. 
Cheguei até a aventurar-me a ir ao Jamor ganhar a Taça. Eu era Feliz... Mesmo! 
Em 2005, surge um plasma enorme e uma box pirata que me trazia o Dragão a uma casa quente que se enchia de pessoas para ver e vibrar comigo a cada jogo, a cada golo, a cada vitória do Porto. 
Começava a era do sofá e do afastar do Estádio do Dragão fisicamente, até porque já era caro comprar bilhete e pagar as cotas, mas ainda ia aos clássicos e estive em grandes vitórias, grandes momentos. 
Veio o sinal digital, o "apagar" da Sport TV, o afastamento das pessoas e o "boom" dos streamings via net. 
Hoje em dia, espero e desespero pela melhor página para ver o Porto num quadradrinho pixelizado, largos segundos de emissão atrasada, com sucessivas paragens que me fazem dar murros no teclado adaptado, ansioso, sozinho, stressado, com o consolo da certeza de que vou poder ver o rescaldo no Porto Canal. 
Um dia, acabará o futebol gentilmente partilhado na Internet e até neste campo voltarei ao passado com o invisível relato na rádio. 
Para lá caminho, como prevejo outras situações adversas e injustas para mim. 
Afastei-me do Dragão, do frio das bancadas laterais, do calor da massa humana portista, dos cânticos das claques, do fumo dos cigarros alheios, dos cachecóis levantados, das cadeiras de rodas em fila que eu próprio integrava, dos insultos às mães dos árbitros e lampiões, do sofrimento dum golo na nossa baliza, do orgasmo vibrante e eufórico a cada Golo do Porto que quase me faziam saltar da cadeira de rodas num momento de auge que não sei descrever. 
Da alegria estampada no meu olhar a cada regresso a casa com mais uma vitória complementada com o bilhete no bolso que juntava numa coleção que parou em setembro de 2011, num jogo para a Liga dos Campeões com o Shaktar. Foi a minha última vez. 

Entre 4 paredes, sozinho, há algo que nunca ninguém me há-de tirar: A forma desalmada, eufórica e ruidosa de berrar "GOOOOOOOOOOOLLOOOOOO DO POOOOOORTO"!!! 

Como há 25, 30 anos até hoje. 

Amo-te Porto! 

Manuel Francisco Costa